Introdução
O curta‑metragem Fitas apresenta Renee, uma adolescente autista que utiliza recursos de comunicação aumentativa e alternativa (CAA) durante um passeio de canoa. Ao solicitar, por meio do celular, que vá ao banheiro, ela abre um caminho que revela muito mais que um simples pedido. O filme ilustra, de forma sensível, um desafio cotidiano para quem acompanha pessoas que se comunicam por símbolos, imagens ou dispositivos: compreender o que está por trás da mensagem.
Quando a palavra é apenas o ponto de partida
Na cena, Marcus interpreta a mensagem como um objetivo imediato – levar Renee ao banheiro. Contudo, ao percorrer a margem do rio, a adolescente demonstra interesse pelas plantas, tocando‑as e explorando suas texturas. O “banheiro” deixa de ser apenas um destino e passa a integrar uma sequência de experiências que tem significado para ela.
Esse exemplo evidencia uma ideia central da CAA: os símbolos são pistas, não respostas definitivas. Cada escolha de palavra, ícone ou gesto pode indicar necessidades, preferências, curiosidades ou um contexto mais amplo que ainda não foi percebido pelo interlocutor.
O que a literatura científica diz
Revisões sistemáticas apontam que intervenções baseadas em CAA aumentam a frequência e a variedade das interações comunicativas de pessoas com TEA. White, Ayres e Snyder (2021) observaram, em sua revisão publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders, que o uso de dispositivos eletrônicos ou de baixa tecnologia favorece a produção de fala espontânea e reduz comportamentos de frustração.
Estudos realizados no Brasil corroboram esses achados. Um artigo de Pereira, Montenegro e Rosal (CoDAS, 2020) mostrou que a introdução de sistemas de símbolos em salas de aula inclusivas promoveu maior participação de estudantes autistas em atividades grupais, ampliando tanto a compreensão quanto a expressão de ideias.
Meta‑análises recentes (O'Neill, Light & Pope, 2018) reforçam que a combinação de estratégias de CAA com apoio visual e modelagem verbal gera efeitos positivos em indivíduos com necessidades comunicativas complexas, independentemente da tecnologia empregada.
Interpretando símbolos no contexto
Na prática clínica, situações semelhantes ao filme são frequentes. Uma criança que seleciona o símbolo “banheiro” pode estar indicando:
- Necessidade fisiológica real;
- Desejo de chegar a um local onde há um objeto de interesse (por exemplo, um brinquedo ou um cheiro familiar);
- Intenção de iniciar uma atividade associada ao ambiente (como lavar as mãos ou observar algo que está ali);
- Uma sequência de passos que ainda não foi verbalizada.
Da mesma forma, ao apontar para “comer”, a pessoa pode estar sinalizando fome, mas também pode estar indicando que deseja estar perto de alguém que está comendo ou que deseja explorar o aroma de um alimento.
Esses exemplos reforçam a necessidade de observar o contexto anterior e posterior à escolha do símbolo, bem como os estímulos sensoriais que podem estar presentes.
Como ampliar a comunicação
Quando utilizamos sistemas baseados em Core Words (palavras de alta frequência), não estamos apenas ensinando rótulos isolados. Estamos oferecendo um repertório que permite ao usuário combinar símbolos para criar mensagens mais complexas. Essa flexibilidade favorece a construção de narrativas pessoais e a expressão de emoções.
Mesmo recursos de baixa tecnologia, como flipbooks ou painéis de símbolos, podem abrir caminhos comunicativos quando inseridos nos momentos significativos para a pessoa. O que importa não é a sofisticação do dispositivo, mas a adequação ao ambiente de uso e ao propósito da interação.
Postura do interlocutor: do “o que” ao “para que”
Uma mudança de perspectiva pode transformar a qualidade da troca. Em vez de perguntar apenas “O que ela está dizendo?”, vale perguntar “O que ela está tentando me mostrar?”. Essa mudança orienta o adulto a:
- Observar o percurso da pessoa antes de atender ao pedido imediato;
- Esperar o tempo de resposta, sem interromper a sequência de ações;
- Investigar o contexto, perguntando suavemente se há algo mais que a pessoa deseja explorar.
Na prática, isso significa que, ao receber o símbolo “banheiro”, o cuidador pode acompanhar Renee até a margem, notar seu interesse nas plantas e, então, oferecer a oportunidade de tocar ou cheirar, antes de conduzi‑la ao banheiro propriamente dito.
Implicações para a formação de profissionais
Profissionais que trabalham com CAA devem desenvolver habilidades de observação contextual e de modelagem responsiva. Cursos de formação em ABA e neurodesenvolvimento já incorporam módulos sobre interpretação de símbolos, mas é fundamental que essas aulas enfatizem a importância de:
- Registrar as interações antes, durante e depois do uso do símbolo;
- Coletar dados sobre padrões de interesse sensorial que antecedem as escolhas comunicativas;
- Adaptar os sistemas de símbolos ao ambiente (por exemplo, incluir imagens de plantas ou objetos presentes na sala).
Essas práticas alinham‑se com as recomendações de Dietz, Wallace e Weissling (2020), que defendem a integração de CAA em programas de reabilitação de linguagem, enfatizando a necessidade de contextualização.
Conclusão
O curta‑metragem Fitas nos lembra que a comunicação vai muito além da palavra isolada. Cada símbolo pode ser a porta de entrada para um universo de experiências sensoriais, emocionais e sociais. Ao adotar uma postura curiosa e contextual, profissionais, familiares e educadores ampliam as oportunidades de expressão e reduzem barreiras de compreensão.
Em síntese, a CAA não é apenas um conjunto de recursos; é uma relação dinâmica entre pessoa, ambiente e interlocutor. Quando reconhecemos e valorizamos essa relação, criamos espaços mais inclusivos e verdadeiramente comunicativos para pessoas autistas.
Perguntas frequentes
Por que o símbolo "banheiro" pode ter mais de um sentido?
Qual a diferença entre usar um flipbook e um dispositivo eletrônico?
Como profissionais podem melhorar a interpretação de CAA?
📚 Fontes e pesquisas
Artigos científicos e pesquisas consultadas sobre comunicação aumentativa.
🔬 Estudos internacionais (PubMed)
-
Augmentative and Alternative Communication and Speech Production for Individuals with ASD: A Systematic Review.
Journal of autism and developmental disorders, 2021 -
Augmentative and Alternative Communication on Autism Spectrum Disorder: Impacts on Communication.
CoDAS, 2020 -
Revisiting the Role of Augmentative and Alternative Communication in Aphasia Rehabilitation.
American journal of speech-language pathology, 2020 -
Augmentative and Alternative Communication Supports for Language and Literacy in Preschool: Considerations for Down Syndrome and Autism Spectrum Disorder.
Seminars in speech and language, 2021 -
Effects of Interventions That Include Aided Augmentative and Alternative Communication Input on the Communication of Individuals With Complex Communication Needs: A Meta-Analysis.
Journal of speech, language, and hearing research : JSLHR, 2018
Estas fontes foram consultadas automaticamente. Este artigo não substitui orientação profissional.