A principal diferença entre o ABLLS-R e o VB-MAPP está no foco teórico e na abrangência do desenvolvimento que cada um propõe avaliar. Enquanto o VB-MAPP se concentra profundamente na análise do comportamento verbal e em marcos de desenvolvimento típicos de 0 a 48 meses, o ABLLS-R cobre um espectro mais amplo de habilidades básicas, acadêmicas e de vida diária, estendendo-se até o início da idade escolar. A escolha entre os dois protocolos depende diretamente do repertório atual da pessoa autista e das prioridades de ensino identificadas pela equipe.
O que é o VB-MAPP e como ele funciona na prática?
O VB-MAPP (Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program) é uma ferramenta de avaliação baseada na análise do comportamento verbal de B.F. Skinner. Ele não avalia a linguagem apenas pela forma (como a criança fala), mas principalmente pela função (por que a criança fala). O protocolo é dividido em três partes principais: avaliação de marcos, avaliação de barreiras e avaliação de transição.
No dia a dia da clínica, aplicar o protocolo VB-MAPP exige que o terapeuta crie oportunidades naturais e estruturadas para observar os operantes verbais. Por exemplo, durante uma sessão, o terapeuta pode segurar um pote de bolhas de sabão fechado. Se a criança autista olha para o pote e diz "bolha" (ou usa uma prancha de comunicação alternativa para solicitar), o terapeuta registra um ponto no repertório de mando (pedido). Mais tarde, se o terapeuta aponta para uma imagem de uma bolha em um livro e pergunta "O que é isso?", e a criança responde "bolha", o registro vai para o repertório de tacto (nomeação).
Um grande diferencial do VB-MAPP é a sua Avaliação de Barreiras. O terapeuta não anota apenas o que a criança sabe fazer, mas também o que está impedindo o seu aprendizado. Durante a sessão, o profissional pode observar e pontuar se há dependência de dicas (prompt), hiperatividade, falha em generalizar habilidades ou comportamentos que interferem no ensino. Isso muda completamente a elaboração do plano de intervenção.
O que é o ABLLS-R e como aplicá-lo no dia a dia?
O ABLLS-R (Assessment of Basic Language and Learning Skills - Revised) é um protocolo que avalia 544 habilidades distribuídas em 25 áreas do desenvolvimento, nomeadas de A a Z. Ele abrange desde a cooperação e eficácia do reforçador até habilidades motoras, de linguagem, acadêmicas (leitura, matemática) e de cuidados pessoais (vestir-se, higiene).
Na prática, uma sessão de avaliação com o ABLLS-R pode envolver uma mistura de ensino em ambiente natural e tentativas discretas (DTT). Por exemplo, para avaliar a área de Desempenho Visual (Área B), o terapeuta pode colocar três figuras diferentes na mesa e entregar uma figura idêntica à criança, dando a instrução "Coloque igual". O terapeuta anota na folha de registro se a criança conseguiu parear as figuras, quantas figuras ela consegue parear no total e se precisou de ajuda.
Outro exemplo prático ocorre na avaliação de habilidades de vida diária. O terapeuta pode acompanhar a criança até o banheiro para lavar as mãos (Área U). Ele observa e registra quais passos da cadeia de comportamentos a criança faz de forma independente: ligar a torneira, pegar o sabão, esfregar as mãos, enxaguar e secar. Cada habilidade no ABLLS-R possui critérios específicos de pontuação que variam de 0 a 4, permitindo visualizar o progresso em pequenos passos ao longo dos meses.
Principais diferenças entre ABLLS-R e VB-MAPP
Embora ambos sejam protocolos de avaliação referenciados por critério e amplamente utilizados na terapia ABA, eles apresentam diferenças estruturais importantes que o analista do comportamento deve considerar:
- Base teórica da linguagem: O VB-MAPP separa rigorosamente a linguagem expressiva por função (mando, tacto, intraverbal, ecoico). O ABLLS-R também avalia pedidos e nomeações, mas agrupa as habilidades de linguagem de uma forma um pouco mais tradicional, o que pode dificultar a identificação de déficits específicos de controle de estímulos para terapeutas menos experientes em comportamento verbal.
- Faixa de desenvolvimento: O VB-MAPP foca em marcos de desenvolvimento de crianças com desenvolvimento típico de 0 a 4 anos. O ABLLS-R vai além, abrangendo habilidades que uma criança típica desenvolveria até os 7 ou 8 anos, incluindo um foco maior em habilidades acadêmicas.
- Avaliação de barreiras: O VB-MAPP possui uma seção dedicada exclusivamente a quantificar 24 barreiras de aprendizagem. O ABLLS-R não possui uma avaliação de barreiras separada e formalizada da mesma maneira.
- Habilidades de vida diária e motoras: O ABLLS-R é muito mais detalhado em áreas como vestir-se, comer, higiene pessoal e coordenação motora grossa e fina. O VB-MAPP foca predominantemente em linguagem, brincar e habilidades sociais.
Como escolher entre ABLLS-R e VB-MAPP? Passos práticos
É fundamental ressaltar que as decisões clínicas são de inteira responsabilidade do profissional encarregado pelo caso. Não existe uma regra única, e a escolha do protocolo não garante, por si só, nenhum resultado terapêutico. O terapeuta deve analisar o perfil do aprendiz. Veja alguns passos práticos para guiar essa decisão:
- Analise a idade e o repertório inicial: Para crianças pequenas (até 4 ou 5 anos) ou indivíduos mais velhos com atrasos significativos na linguagem funcional, o VB-MAPP costuma ser o ponto de partida ideal devido ao seu foco na construção dos operantes verbais básicos.
- Identifique a necessidade de habilidades de autonomia: Se o aprendiz já possui uma linguagem funcional bem estabelecida e o foco da família e da escola está em habilidades acadêmicas iniciais, rotinas de sala de aula e independência em casa (como arrumar a própria cama ou seguir rotinas de higiene complexas), o ABLLS-R pode fornecer um mapa mais detalhado.
- Avalie a presença de comportamentos interferentes: Se a criança apresenta muitas dificuldades para aprender, chora frequentemente durante as demandas ou não demonstra interesse por brinquedos, a Avaliação de Barreiras do VB-MAPP será crucial para entender o que está bloqueando o aprendizado antes de focar em novas habilidades.
- Considere a transição para outros protocolos: Muitas vezes, os protocolos são complementares. Um profissional pode iniciar a intervenção baseada no VB-MAPP e, à medida que a criança atinge o Nível 3, introduzir o ABLLS-R para mapear habilidades acadêmicas, ou até mesmo migrar para o AFLS ou PEAK, dependendo das necessidades futuras.
Erros comuns ao utilizar protocolos de avaliação em ABA
Independentemente de escolher o ABLLS-R ou o VB-MAPP, terapeutas e donos de clínica frequentemente esbarram em erros que comprometem a qualidade da intervenção:
- Ensinar o teste: O erro mais grave é transformar os itens específicos da avaliação diretamente em metas de ensino sem buscar a generalização. Se a avaliação pede para a criança nomear um cachorro, um gato e um pássaro, o programa de ensino não deve se limitar a esses três animais. O objetivo é ensinar a habilidade de nomear, usando múltiplos exemplares.
- Ignorar os pré-requisitos: Tentar ensinar uma criança a responder perguntas (intraverbal) antes de ela ter um repertório sólido de pedidos (mando) e nomeações (tacto). Ambos os protocolos mostram a importância de seguir uma hierarquia de desenvolvimento.
- Usar o mesmo protocolo para todos: Adotar o VB-MAPP ou o ABLLS-R como regra engessada da clínica para 100% dos pacientes. Cada pessoa autista é única, e a avaliação deve ser individualizada.
Organizando os programas de ensino após a avaliação
Após a aplicação minuciosa do protocolo escolhido, o desafio do terapeuta é transformar os dados coletados em um plano de tratamento estruturado e acompanhar a evolução diária. Para facilitar esse processo, o Terapia ABA (terapiaaba.ia.br) é um software brasileiro para clínicas e profissionais de ABA que ajuda na organização e gestão clínica. O sistema conta com um catálogo de programas alinhados a VB-MAPP, ABLLS-R e PEAK. É importante destacar que a avaliação formal é feita pelo profissional; o sistema entra em cena para organizar os programas e os dados.
Durante a sessão ao vivo, o terapeuta faz o registro por tentativa (anotando acerto, erro, nível de prompt, latência e reforçador) e a coleta ABC, gerando gráficos de evolução por programa automaticamente. O software também possui comunicação alternativa integrada, oferecendo uma prancha por paciente com 13.780 pictogramas ARASAAC em português e voz neural, além de um aplicativo Android da criança que funciona offline. A plataforma inclui agenda semanal visual, relatórios gerados com IA (para a família, clínico e plano de tratamento) e um portal para a família acompanhar a evolução. O Terapia ABA oferece um teste grátis de 14 dias sem cartão. Os planos são: Solo por R$ 149/mês (até 10 pacientes), Clínica por R$ 399/mês (até 50 pacientes) e Clínica Plus por R$ 799/mês (até 200 pacientes). O sistema não tem módulo financeiro ou de faturamento, focando 100% na qualidade técnica da intervenção.