Introdução
Em novembro de 2023, enquanto revisava os slides para uma palestra sobre como a conectividade cerebral pode prever sintomas de transtorno de estresse pós‑traumático (TEPT), percebi que a minha atenção se desviava para as notificações do celular. Notícias de um massacre ocorrido em 7 de outubro em Israel surgiam a cada instante, lembrando‑me de que o tema da conferência estava diretamente ligado a uma tragédia ainda viva.
O desafio de falar sobre trauma vivido
O problema que se destaca na neurociência do trauma vai além da precisão dos instrumentos de medida. Embora possamos mapear alterações na aprendizagem de ameaças, memória e tomada de decisão, ainda falta linguagem para abordar como o próprio pesquisador, inserido em um contexto de violência, deslocamento ou crise de saúde pública, incorpora esse trauma nas discussões científicas. Essa questão não se restringe a um país: israelenses, palestinos, ucranianos, iranianos e muitos outros cientistas trabalham sob condições de guerra, deslocamento ou violência contínua.
O momento da apresentação
Quinze minutos antes de subir ao palco, revisitei o slide de abertura: "Modelagem preditiva baseada em conectoma para desenvolvimento de TEPT em sobreviventes recentes de trauma". O restante da apresentação seguia o plano habitual, porém havia um slide extra após o "Obrigado" que eu ainda hesitava em usar.
Amigos me advertiram: "É arriscado", "Ninguém vai entender" e "Pode prejudicar sua carreira". Embora compreenda essas preocupações, também reconheço que linguagem cuidadosa não equivale a silêncio. Em uma conferência dedicada ao trauma, a ausência de menção ao trauma que afeta a própria plateia cria um vácuo comunicativo.
Decisão e reação da plateia
Ao concluir a palestra em doze minutos, ainda restavam três minutos. Cliquei para avançar além do slide de agradecimento e exibi uma imagem da bandeira de Israel composta por 1.400 rostos – as vítimas do ataque de 7 de outubro. Embora minha intenção fosse apenas reconhecer a complexidade do momento, percebi que a reação da plateia era diversa: alguns colegas me abraçaram, outros permaneceram distantes, e alguns questionaram se tal reconhecimento tinha lugar em um contexto científico.
Nos dias subsequentes, percebi que meu gesto havia sido interpretado como representação nacional, não apenas como ação de um pesquisador. Enquanto alguns colegas conseguem separar sua identidade nacional da prática científica, eu sentia que, para muitos, eu me tornara sinônimo de Israel.
Reflexões sobre objetividade e humanidade
A neurociência traduz experiências privadas em evidências públicas – sinais, imagens, modelos e mecanismos. Essa tradução é essencial, porém incompleta. As medidas cerebrais que estudamos não nos isentam das realidades corporais, familiares e históricas que moldam o que consideramos falável. A objetividade deve guiar a formulação de hipóteses, mas não pode exigir que ignoremos nossa própria vulnerabilidade ao fenômeno estudado.
Em contextos de guerra, deslocamento, desastres, racismo ou crises sanitárias, a pesquisa de trauma pode tornar‑se inviável: laboratórios fecham, clínicas ficam sobrecarregadas, participantes são deslocados e os próprios pesquisadores assumem papéis de cuidadores, reservistas ou enlutados. Esses eventos influenciam não só as populações estudadas, mas também quem formula as perguntas e onde elas são debatidas.
Propostas para normas profissionais
Defendo a criação de normas que permitam reconhecimentos breves e humanos quando um trauma agudo impacta diretamente a comunidade científica, sem exigir concordância ideológica nem transformar cada sessão em debate político. Organizadores de eventos realizados durante crises poderiam:
- Destacar, no programa, momentos específicos para agradecimentos ou menções ao contexto atual.
- Oferecer apoio psicológico fora das sessões formais.
- Orientar palestrantes a diferenciar reconhecimento de advocacy, mantendo clara a distinção entre evidência empírica e testemunho pessoal.
Essas medidas não comprometem a integridade científica; ao contrário, tornam o ambiente mais humano e reconhecem que a ciência do trauma não pode fingir que a realidade vivida permanece fora da sala de aula.
Conclusão
O dilema de incluir ou não o trauma vivido em apresentações científicas não tem resposta única. Contudo, reconhecer que pesquisadores são também seres humanos afetados por eventos globais pode enriquecer o debate, promover empatia e evitar a invisibilidade das dimensões humanas que permeiam a pesquisa. Ao equilibrar rigor metodológico com sensibilidade contextual, avançamos rumo a uma neurociência do trauma mais inclusiva e responsável.