Introdução ao legado de Susumu Tonegawa
Susumu Tonegawa, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1987, deixou um marco profundo tanto na imunologia quanto na neurociência. Seu percurso científico, que começou com a investigação da diversidade de anticorpos, evoluiu para a exploração dos mecanismos da memória, estabelecendo bases que ainda orientam pesquisas atuais.
Da imunologia à descoberta dos engramas
Após a formação de seu doutorado em 1968 na Universidade da Califórnia, San Diego, onde estudou o controle transcricional do fagócito λ, Tonegawa ingressou no Basel Institute for Immunology. Lá, envolveu‑se no debate central sobre como os anticorpos são gerados – questão que culminou na sua descoberta premiada.
Nos anos 1990, motivado por novos desafios, ele voltou aos Estados Unidos e se instalou no Center for Cancer Research do MIT. Foi nessa fase que decidiu focar na memória, considerando‑a "no centro de fenômenos mentais como decisão, pensamento, emoção e consciência" (Lasker Foundation, Q&A).
Inovações genéticas que transformaram a neurociência
Em 1996, Hongkui Zeng, recém‑doutorada, recebeu um convite de Tonegawa para integrar seu laboratório. Ele apresentou um camundongo transgênico CAMKII‑Cre, que permitia controle genético preciso em tipos celulares específicos. Essa ferramenta possibilitou a criação de knockouts de receptores NMDA em populações neuronais definidas, demonstrando seu papel essencial na formação de memórias.
Essas manipulações genéticas abriram caminho para investigações mais refinadas, indo além de genes isolados para examinar alterações sinápticas em ensembles neuronais – o que Tonegawa chamava de "células que armazenam memória".
O surgimento da neurociência dos engramas
Na década de 2010, Tonegawa e sua equipe publicaram uma série de artigos que mostraram que a ativação de subconjuntos específicos de neurônios via optogenética podia reativar uma memória, mudar sua valência e até gerar memórias falsas. Esses achados deram origem ao campo dos engramas, conforme destacado por Steve Ramirez, professor associado da Boston University, que realizou seu doutorado sob a orientação de Tonegawa.
Um experimento marcante ocorreu em 2014, quando Dheeraj Roy, então estudante de pós‑doutorado no laboratório, induziu amnésia retrógrada em camundongos ao bloquear a síntese de proteínas – processo crucial para a consolidação da memória. Ao reativar os neurônios supostamente responsáveis pelo engrama, os animais amnésicos recuperaram a memória com desempenho idêntico ao de animais controle. Roy descreve: "Essencialmente, todo camundongo amnésico em que reativamos o engrama exibiu recordação normal, sem diferença alguma".
Engramas espalhados por todo o cérebro
Os estudos de Tonegawa mostraram que os engramas não se restringem ao hipocampo. Investigações posteriores revelaram alterações engramáticas em regiões corticais e até no tálamo, indicando que a memória se distribui por múltiplas áreas cerebrais. Roy relata que, em 2012, Tonegawa já expressava cansaço ao focar exclusivamente no hipocampo, desejando uma explicação da memória em nível de todo o cérebro.
Contribuições institucionais e visão pessoal
Tonegawa fundou o Center for Learning and Memory no MIT, atualmente conhecido como Picower Institute for Learning and Memory, e dirigiu o RIKEN‑MIT Center for Neural Circuit Genetics, bem como o RIKEN Brain Science Institute. Colegas descrevem-no como "um gigante intelectual" e, ao mesmo tempo, como uma pessoa afável e discreta fora do laboratório.
Sheena Josselyn, cientista sênior do Hospital for Sick Children, ressalta que Tonegawa conduziu experimentos ousados que, muitas vezes, levaram a comunidade científica algum tempo para acompanhar. Ela acrescenta que sua abordagem combinou genética e neurociência de forma inédita, estabelecendo novos paradigmas de pesquisa.
Legado e influência nas próximas gerações
O impacto de Tonegawa persiste nas carreiras de inúmeros pesquisadores. Hongkui Zeng, que se tornou diretora do Allen Institute, e Steve Ramirez continuam a expandir as fronteiras da neurociência da memória, inspirados pela visão de Tonegawa de decifrar os mecanismos celulares da lembrança.
Além da ciência, Tonegawa compartilhava paixões pessoais, como o beisebol. Ele levava membros do laboratório para assistir aos Red Sox, demonstrando que, mesmo em ambientes de alta pressão, valorizava momentos de descontração e conexão humana.
Conclusão
Susumu Tonegawa faleceu em 11 de julho, aos 86 anos, deixando um legado que transcende disciplinas. Seu percurso, da descoberta da diversidade de anticorpos ao mapeamento dos engramas da memória, exemplifica a capacidade de um cientista de transformar perguntas fundamentais em respostas que moldam gerações futuras.