Um novo caminho imunológico fora do cérebro pode ser alvo terapêutico em Alzheimer
Pesquisadores da Universidade de Washington em St. Louis descobriram que a ativação de células T em gânglios linfáticos, localizados fora do cérebro, pode preparar essas células para entrar no sistema nervoso central e contribuir para a neurodegeneração observada em Alzheimer e em outras tauopatias. Quando esse sinal imunológico foi interrompido em camundongos, a perda de neurônios foi drasticamente reduzida e as funções cognitivas foram preservadas, apesar da presença de agregados de proteína tau.
O que sabemos sobre a participação do sistema imunológico em Alzheimer?
Em pacientes com Alzheimer, há um acúmulo anormal de células T e outras células inflamatórias no cérebro. Evidências apontam que essas células podem agravar a perda de neurônios, mas a origem e o gatilho dessa resposta ainda eram desconhecidos. O novo estudo, publicado em 3 de setembro na revista Nature Neuroscience, traz uma resposta ao apontar um ponto de partida fora do cérebro.
Onde as células T se ativam?
Os autores demonstraram que a maioria das células T que aparecem no cérebro de camundongos com tauopatias são ativadas em gânglios linfáticos, particularmente no pescoço. Esses gânglios contêm células dendríticas do tipo 1 (cDC1), que são responsáveis por apresentar antígenos às células T. No cérebro, a presença dessas células dendríticas é escassa e não parece interagir com as células T que se acumulam após a formação de tangles de tau.
Interferência no sinal imunológico reduz danos cerebrais
Ao eliminar as células dendríticas dos gânglios linfáticos em camundongos que desenvolvem tangles de tau, os pesquisadores observaram uma redução quase completa das células T CD8 no cérebro e, consequentemente, uma diminuição significativa da neurodegeneração. Curiosamente, o número de tangles de tau permaneceu inalterado, sugerindo que a inflamação mediada por células T é um fator adicional que acelera a perda de função cerebral.
Preservação da cognição apesar da presença de tangles
Os animais tratados com bloqueio das células dendríticas mantiveram desempenho cognitivo semelhante ao de camundongos saudáveis, indicando que a modulação da resposta imunológica pode retardar o declínio cognitivo mesmo quando a carga de tau não é alterada. Esse achado abre a possibilidade de terapias que visem a resposta imunológica em vez de apenas remover ou reduzir os agregados de tau.
Como a informação pode chegar aos gânglios linfáticos?
Os autores ainda não identificaram o sinal exato que ativa as células dendríticas nos gânglios. Uma hipótese é que fragmentos de proteína tau ou outros materiais celulares liberados em áreas de dano cerebral viajam para os gânglios linfáticos, onde são reconhecidos e apresentados às células T. Esse processo, se confirmado, pode revelar um alvo específico para interromper a migração de células T para o cérebro.
Perspectivas terapêuticas e próximos passos
Como a ativação de células T ocorre fora do cérebro, terapias que modifiquem a resposta imunológica nos gânglios linfáticos podem ser mais acessíveis e seguras, evitando a necessidade de atravessar a barreira hematoencefálica. O grupo de Holtzman está testando se a interferência nas células dendríticas em fase de meia-idade, quando os tangles de tau começam a se formar, reproduz a proteção observada quando o bloqueio é aplicado desde o nascimento. Além disso, a equipe busca identificar o sinal exato que guia as células T para o cérebro, o que pode levar ao desenvolvimento de fármacos específicos ou de terapias celulares já aprovadas para outras doenças.
Em resumo, o estudo destaca um novo mecanismo imunológico que pode ser explorado para retardar ou prevenir a neurodegeneração em Alzheimer e tauopatias, oferecendo uma direção promissora para pesquisas futuras e potenciais intervenções clínicas.