Um gene exclusivo dos humanos e o ritmo singular do cerebro
Pesquisadores do Zuckerman Institute, da Universidade de Columbia, divulgaram um estudo publicado na revista Neuron que ajuda a entender por que o cerebro humano amadurece tao lentamente em comparacao com o de outros mamiferos. A pesquisa, liderada pelo neurocientista Carlos Diaz-Salazar durante seu periodo no laboratorio de Franck Polleux, aponta que as microglias humanas, celulas imunologicas essenciais para o desenvolvimento cerebral, podem levar de quatro a oito anos para amadurecer, enquanto em camundongos esse processo ocorre em cerca de tres semanas.
O estudo coloca em evidencia o gene SRGAP2, um dos poucos genes duplicados especificamente na linhagem humana. Copias humanas desse gene sao conhecidas por aumentar o numero de sinapses nos neuronios e fazer essas conexoes amadurecerem de forma lenta, caracteristicas que distinguem os neuronios humanos dos de outros mamiferos. O achado surpreendente foi descobrir que essas copias humanas sao quase dez vezes mais abundantes nas microglias do que nos neuronios.
O que sao microglias e por que importam
As microglias correspondem a cerca de 5 a 10 por cento de todas as celulas do cerebro. Por muito tempo foram vistas apenas como celulas de defesa contra invasores e de limpeza de neuronios danificados. Nas ultimas duas decadas, porem, a ciencia passou a reconhece-las como participantes ativas da organizacao do cerebro em desenvolvimento.
Durante a formacao do sistema nervoso, as microglias decidem quais sinapses os neuronios vao manter e quais serao eliminadas. Tambem podem tornar essas conexoes mais ou menos responsivas, ajustando finamente a comunicacao entre os circuitos cerebrais. Quando esse processo se prolonga no ser humano, abrese uma janela temporal maior para refinar as redes neuronais, o que pode contribuir para a complexidade cognitiva que caracteriza a especie.
Esta possivelmente seja a chave para que microglia humanas influenciem o cerebro de maneiras unicas, viabilizando nossas poderosas habilidades cognitivas, afirmou Diaz-Salazar.
Neotenia e o cerebro que demora para crescer
O fenomeno de desenvolvimento cerebral prolongado e conhecido como neotenia. Ele descreve justamente o fato de o cerebro humano continuar se moldando por um periodo muito mais longo do que o de outros mamiferos. Essa janela estendida é considerada um dos fatores por tras do surgimento de capacidades cognitivas avancadas.
A nova pesquisa sugere que o SRGAP2 funciona como um tipo de regiao de controle, ajustando o tempo de desenvolvimento em diferentes tipos de celulas cerebrais, neuronios e microglias, mantendo-as em sintonia. Para os autores, esse mecanismo coordenado pode ser parte do que diferencia o cerebro humano em termos evolutivos.
O laboratorio de Franck Polleux dedica mais de quinze anos ao estudo do SRGAP2 e de outros genes duplicados exclusivamente em humanos. O objetivo mais amplo e mapear as bases biologicas que tornam o cerebro humano distinto dos de outros animais.
Implicacoes para neurodesenvolvimento e doencas cerebrais
Os pesquisadores destacam que descobertas recentes associam as microglias a transtornos do neurodesenvolvimento e a doencas neurodegenerativas. Compreendere o que torna a microglia humana singular abre caminho para investigar melhor essas condicoes, nas quais o ritmo e a precisao do amadurecimento cerebral costumam estar comprometidos.
Em pessoas autistas, por exemplo, alteracoes na poda sinaptica e na maturaracao de circuitos corticais tem sido estudadas como uma das possiveis linhas de investigacao. Embora o estudo do Zuckerman Institute naqual tenha sido desenhado para investigar o TEA diretamente, o aprofundamento sobre o papel das microglias humanas contribui para o entendimento mais amplo de como o cerebro se forma, amadurece e, eventualmente, se desregula.
Os proximos passos da pesquisa
A equipe quer entender exatamente como o SRGAP2 promove neotenia nas microglias e em outras celulas cerebrais. Segundo Polleux, o objetivo e compreender todos os elementos que compoem o cerebro humano a fim de identificar o que nos torna unicos do ponto de vista evolutivo, e usar esse conhecimento para entender melhor as doencas que afetam o cerebro.
Carlos Diaz-Salazar, autor principal do estudo, atualmente pesquisador no Hospital del Mar Medical Research Institute, em Barcelona, conduzira as proximas etapas dessa linha de investigacao, ampliando o mapeamento do gene em diferentes tipos celulares.
Por que esse estudo importa
- Mostra que a microglia humana amadurece entre 4 e 8 anos, em contraste com 3 semanas em camundongos.
- Identifica que copias humanas do gene SRGAP2 sao dez vezes mais abundantes em microglias do que em neuronios.
- Sugere que o SRGAP2 coordena o ritmo lento de desenvolvimento entre neuronios e microglias.
- Abre novas frentes de estudo sobre transtornos do neurodesenvolvimento e doencas neurodegenerativas em que as microglias estao envolvidas.
O estudo foi publicado na revista Neuron e divulgado pelo Zuckerman Institute at Columbia University em agosto de 2026, com Carlos Diaz-Salazar como primeiro autor e Franck Polleux como investigador principal. A pesquisa integra um esforco mais amplo para entender por que o cerebro humano e tao diferente, tao complexo e, ao mesmo tempo, tao vulneravel a certas condicoes neurologicas.