O debate sobre a gerontocracia e seus reflexos na inclusão social
Recentemente, o professor de Direito e História da Universidade Yale, Samuel Moyn, trouxe ao centro do debate público um tema sensível: a concentração de poder e riqueza nas mãos das gerações mais velhas, fenômeno que ele denomina como "gerontocracia". Em seu livro Gerontocracy in America, Moyn propõe medidas provocativas, como a aposentadoria compulsória e incentivos para a transferência de ativos imobiliários, argumentando que a permanência prolongada de lideranças seniores em cargos de decisão estaria limitando as perspectivas das gerações mais jovens.
Embora o diagnóstico de Moyn sobre a mudança demográfica e a ascensão da idade média em postos de comando seja baseado em dados observáveis, é fundamental analisar essas propostas sob a ótica da neurodiversidade e da inclusão. A ideia de uma "tirania dos velhos" corre o risco de fomentar o etarismo, um preconceito que, assim como o capacitismo, atua na marginalização de grupos com base em características inerentes à sua condição — neste caso, a idade.
O risco do discurso de "nós contra eles"
Quando falamos de inclusão, especialmente no campo do neurodesenvolvimento e do TEA, aprendemos que a diversidade é a base de uma sociedade resiliente. A neurodiversidade nos ensina que diferentes modos de processar o mundo, de aprender e de interagir são valiosos. Ao aplicar essa lógica à demografia, percebemos que a convivência entre diferentes faixas etárias não é apenas uma questão de cortesia, mas uma estratégia de desenvolvimento humano.
A busca por uma sociedade mais justa não deve ser construída sobre a exclusão de qualquer grupo, mas sobre a criação de pontes que permitam o fluxo de conhecimento e a participação equitativa de todos.
A importância da perspectiva intergeracional
O debate proposto por Moyn levanta questões sobre renovação e acesso, mas precisamos ter cautela para não transformar a necessidade de renovação em uma guerra geracional. No contexto da inclusão de pessoas autistas e neurodivergentes, a experiência de profissionais seniores — que muitas vezes acumulam décadas de vivência clínica ou prática — é um pilar importante para a continuidade de intervenções baseadas em evidências, como a ABA (Análise do Comportamento Aplicada).
- Valorização da experiência: A sabedoria acumulada por gerações anteriores é essencial para o aprimoramento das práticas de suporte.
- Inovação e renovação: O olhar das novas gerações traz tecnologias e novas formas de pensar a acessibilidade e a autonomia.
- Coexistência: A inclusão real pressupõe que espaços de trabalho e decisão sejam acessíveis a pessoas de todas as idades, com diferentes necessidades de suporte.
Repensando a inclusão para além da idade
O desafio não é remover a "mão de obra sênior", mas sim garantir que as estruturas sociais sejam flexíveis o suficiente para acolher a juventude sem descartar a experiência. Em vez de aposentadorias compulsórias que podem gerar insegurança financeira e isolamento, o foco deveria estar na criação de programas de mentoria e na transição de lideranças que valorizem o legado enquanto abrem caminhos para a inovação.
Para a comunidade neurodivergente, o etarismo é uma barreira adicional. Muitos adultos autistas, ao envelhecerem, enfrentam desafios específicos de saúde e suporte. Se normalizarmos discursos que desvalorizam o idoso, estaremos enfraquecendo a rede de proteção que, futuramente, precisaremos para todos os membros da nossa sociedade, independentemente do seu perfil neurocognitivo.
Portanto, ao analisar as propostas de Moyn, devemos nos perguntar: como podemos promover a equidade sem cair na armadilha do preconceito? A resposta reside em políticas públicas que garantam oportunidades para os jovens, sem que isso signifique o descarte ou a marginalização daqueles que construíram o caminho até aqui. A verdadeira inclusão é aquela que reconhece o valor de cada etapa da vida e promove a colaboração, e não a disputa, entre gerações.