Um simpósio que transcende fronteiras
No novembro passado, enquanto dezenas de milhares de neurocientistas se dirigiam ao grande congresso da Society for Neuroscience (SfN) em San Diego, um encontro mais íntimo acontecia nas proximidades. O primeiro Middle Eastern Systems Neuroscience Symposium reuniu pesquisadores da região em um ambiente de troca de ideias, sabores e música.
Origem e motivação
Quatro bolsistas de pós‑doutorado nos Estados Unidos – Arash, nascido em Teerã (Irã); Abdulraheem, palestino cidadão de Israel; e Gily e Noga, criados em comunidades predominantemente judaicas em Israel – participaram de um Middle Eastern Social no SfN 2024. Organizado por Yavin Shaham e outros neurocientistas da região, o evento ocorreu na véspera do primeiro aniversário da tragédia de 7 de outubro, que intensificou os conflitos no Oriente Médio.
Mesmo diante de histórias dolorosas, os participantes descobriram experiências formativas semelhantes e uma empatia que funcionou como “um sopro de ar fresco”. Essa conexão, ao mesmo tempo natural e complexa, inspirou a ideia de criar um espaço permanente para compartilhar ciência e cultura.
Do encontro informal ao simpósio oficial
Com apoio da Simons Foundation, da University of California San Diego, da ScienceAbroad, de doadores privados via GoFundMe e do próprio Shaham, o grupo organizou um simpósio de um dia inteiro em 2025. Entre os palestrantes de destaque estavam Reza Shadmehr, Nachum Ulanovsky e Athena Akrami. Também foram incluídas apresentações de jovens pesquisadores, garantindo a representatividade da próxima geração de neurocientistas do Oriente Médio.
Ambiente científico e cultural
O evento combinou excelência científica com um clima aberto e acolhedor. As sessões de perguntas e respostas revelaram semelhanças culturais: questões diretas, incisivas e, muitas vezes, desafiadoras. Os próprios palestrantes reconheciam que a melhor forma de valorizar uma apresentação era receber questionamentos que testassem suas ideias centrais.
Ao final, participantes de diferentes nacionalidades compartilharam comida mexicana em um bar na cobertura, discutindo neurociência e projetos futuros. Essa atmosfera de colaboração demonstrou a necessidade de um espaço contínuo onde neurocientistas da região possam se encontrar.
Expansão e continuidade
A segunda edição do simpósio está programada para Washington, D.C., em novembro, pouco antes do SfN. Mais do que um encontro anual, os organizadores pretendem manter a comunidade ativa ao longo do ano, lançando:
- Uma plataforma online para troca de metodologias e conselhos;
- Um canal no Slack para discussões em tempo real;
- Presença ampliada nas redes sociais;
- Uma seção no site dedicada a notícias, conquistas e vagas de emprego.
Precedentes inspiradores
O NeuroBridges, escola de verão realizada anualmente em Cluny, França, já demonstra que a neurociência pode servir de ponte entre jovens pesquisadores de Israel, Palestina, Irã e outros países da região. Lá, um neurocientista de Jerusalém pode modelar dados neurais ao lado de um colega de Teerã, exemplificando a colaboração transfronteiriça.
Impacto social e desafios
Ao destacar objetivos científicos comuns, o simpósio ajuda a superar barreiras políticas. Muitos participantes relataram que a experiência foi a primeira interação significativa com alguém do “outro lado”, o que humaniza percepções e reduz estereótipos. Essas trocas têm potencial de gerar efeitos cascata quando os participantes retornam às suas comunidades.
Entretanto, organizar um evento que reúne pessoas de contextos tão diferentes traz desafios logísticos e emocionais. Os organizadores mantiveram atenção cuidadosa a questões de segurança, sensibilidade cultural e equilíbrio de representatividade, reconhecendo que a construção de confiança requer tempo e esforço contínuo.
Testemunhos pessoais
Noga recorda a surpresa de uma cientista iraniana ao encontrar um israelense que a tratou com gentileza. Abdulraheem, pertencente à minoria árabe em Israel, menciona que poucas relações significativas com judeus marcaram sua infância, mas a academia israelense lhe possibilitou amizades com perspectivas distintas. Arash relata que, durante protestos anti‑regime no Irã e durante tensões internacionais, colegas israelenses e palestinos‑israelenses foram os que mais demonstraram empatia, perguntando sobre sua família.
Essas narrativas reforçam a ideia de que a ciência pode ser um terreno neutro onde a curiosidade compartilhada supera divergências políticas.
Perspectivas futuras
O objetivo dos organizadores é transformar o simpósio em um hub permanente de colaboração, onde neurocientistas do Oriente Médio possam desenvolver projetos conjuntos, publicar em revistas de alto impacto e, sobretudo, cultivar relações humanas que transcendem fronteiras geopolíticas.
Ao criar espaços de diálogo baseados em evidências e respeito mútuo, a comunidade demonstra que a neurociência não apenas avança o conhecimento do cérebro, mas também pode contribuir para a construção de pontes de entendimento entre povos.