O desafio de colocar a própria saúde em foco
Para muitas mães que criam filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a própria atenção costuma ficar em segundo plano. A rotina intensa, as demandas emocionais e os cuidados constantes podem levar a hábitos alimentares desregulados, falta de sono e abandono de atividades físicas. Quando a criança atinge a adolescência, surge a oportunidade de reavaliar prioridades e buscar um novo equilíbrio entre o papel de cuidadora e o de indivíduo.
Reconhecendo a importância do autocuidado
O autocuidado não é luxo; é uma intervenção baseada em evidências que favorece a saúde mental e física da mãe, o que, por sua vez, beneficia toda a família. Estudos da American Psychological Association mostram que mães que praticam exercícios regulares apresentam menores níveis de ansiedade e depressão. Assim, dedicar tempo a cuidar do próprio corpo pode ser o primeiro passo para restaurar a autoestima e a energia emocional.
Reavaliando hábitos alimentares
Um padrão comum é o comer emocional – consumir alimentos como resposta a estresse, tristeza ou frustração. Essa prática, embora compreensível, pode gerar ganho de peso e sensação de culpa. Estratégias simples, como manter um diário alimentar, estabelecer horários regulares para as refeições e escolher alimentos ricos em nutrientes, ajudam a criar um relacionamento mais saudável com a comida.
Incorporando atividade física
Começar com metas realistas – por exemplo, caminhar 20 minutos três vezes por semana – pode gerar resultados consistentes. A literatura sobre exercise psychology indica que a prática regular de atividade física aumenta a produção de endorfinas, melhorando o humor e a percepção de bem‑estar. A perda de peso, quando ocorre, costuma ser um efeito colateral positivo, mas o objetivo principal deve ser a sensação de força e vitalidade.
O papel da identidade pessoal na jornada de mãe
Ao longo de mais de uma década, muitas mães descrevem sentir que “perderam a si mesmas” ao assumir o papel de cuidadora exclusiva. Reconhecer que a identidade individual ainda existe – como mulher, profissional, amiga – é essencial para o processo de recuperação. A psicologia do desenvolvimento aponta que a manutenção de múltiplas identidades protege contra o esgotamento.
Redescobrindo o espelho
Observar mudanças físicas, como a redução de dez quilos ou a diminuição do inchaço facial, pode gerar um “efeito de espelho” positivo, reforçando a autoconfiança. Contudo, é importante manter a humildade e evitar comparações excessivas, lembrando que a jornada de saúde é contínua e multifacetada.
Conexão corpo‑mente
O vínculo entre força física e estabilidade emocional torna‑se evidente quando a mãe relata que, ao se sentir mais forte fisicamente, experimenta também maior clareza mental e tranquilidade. Essa interdependência está alinhada com a teoria da bidirectional relationship entre exercício e saúde mental, amplamente documentada em revistas como JAMA Psychiatry.
Transição para uma nova fase
Com os filhos mais velhos e mais independentes, surge a oportunidade de “soltar o controle remoto da parentalidade” e investir em projetos pessoais. Essa transição pode incluir cursos, hobbies criativos ou mesmo o fortalecimento de relacionamentos conjugais. A literatura sobre life course transitions destaca que tais mudanças são cruciais para o bem‑estar a longo prazo.
Planejamento realista
Definir metas específicas – como perder 5 kg em três meses ou praticar yoga duas vezes por semana – ajuda a transformar desejos em ações concretas. Acompanhar o progresso, celebrar pequenas vitórias e ajustar o plano conforme necessário são práticas recomendadas por especialistas em coaching de saúde.
Suporte social
Buscar grupos de apoio, seja presencial ou online, oferece um espaço seguro para compartilhar desafios e estratégias. Estudos do National Autistic Society apontam que mães que participam de redes de apoio apresentam menor risco de burnout e maior sensação de competência parental.
Conclusão: um caminho de equilíbrio
Recuperar a própria identidade e cuidar da saúde física não significa abandonar o papel de mãe, mas sim fortalecer a base que sustenta toda a família. Ao investir em autocuidado, a mãe de pessoa autista cria um ciclo virtuoso: mais energia, melhor humor e maior disponibilidade emocional para seus filhos. O caminho é gradual, requer paciência e apoio, mas os benefícios – tanto para a mãe quanto para a família – são duradouros.