O podcast Introvertendo, um espaço criado por autistas adultos para discutir suas vivências no espectro, lançou nesta sexta-feira (6) o episódio 288, intitulado “Autismo em Todas as Fases da Vida – parte 1”. A conversa, rica em relatos e perspectivas, foi gravada durante o 1º Fórum Olhares que Acolhem, realizado na cidade de Montividiu, no sul de Goiás. O episódio contou com a participação do apresentador Marx Osório, do ex-integrante Tiago Abreu e da terapeuta ocupacional Danielle Carrijo.
O debate abordou a complexidade do autismo, desde o diagnóstico até os desafios enfrentados em diferentes etapas da vida. Os participantes compartilharam experiências pessoais e profissionais, oferecendo uma visão abrangente sobre o tema.
A Experiência Pessoal de Marx Osório com o Autismo
Durante a mesa-redonda, Marx Osório compartilhou detalhes de sua jornada pessoal, desde o desenvolvimento infantil até o diagnóstico tardio de autismo. Ele relatou que apresentou atraso na fala durante a infância, um dos sinais que, retrospectivamente, indicavam a presença do transtorno.
“Eu demorei próximos dos dois anos ou um pouco depois dos dois anos para falar. Minha mãe fala que eu comecei a falar de uma vez, mas com gagueira, comendo algumas letras, sem conseguir formar frase inteira”, explicou Marx, detalhando as dificuldades iniciais na comunicação.
A falta de informação sobre o autismo no interior da Bahia, onde Marx cresceu, foi um fator determinante para que o diagnóstico não fosse considerado na infância. Na época, o autismo era um tema pouco conhecido e raramente associado a crianças com dificuldades de comunicação e socialização.
“O autismo era uma coisa muito distante da gente. Ninguém tinha esse conhecimento, então ninguém desconfiou”, disse. Marx recebeu o diagnóstico apenas aos 28 anos, após conhecer o NAIA Autismo, uma organização que oferece suporte e informação sobre o transtorno. “O prejuízo sempre existiu, sempre foi muito grande, mas as pessoas tentavam explicar de outras maneiras”, completou.
Dificuldades na Escola e a Busca por Refúgio
O apresentador também relembrou as dificuldades vividas no ambiente escolar, especialmente relacionadas à socialização e à permanência em sala de aula. A sensibilidade ao barulho e a dificuldade em lidar com as demandas sociais eram desafios constantes.
“Eu tinha muita dificuldade de ficar na sala por causa do barulho. Muitas vezes eu dava meu jeito de sair para ficar andando pela escola”, relatou. Durante o recreio, Marx buscava refúgio em espaços alternativos, como a biblioteca, onde se sentia mais confortável e menos sobrecarregado.
“Eu ficava conversando com o pessoal da biblioteca ou lendo livros, porque com as outras crianças era uma demanda social que eu não conseguia dar conta”, explicou, ilustrando a dificuldade em interagir com os colegas.
As aulas de educação física também representavam um desafio para Marx, devido às dificuldades motoras. Apesar de gostar de futebol, ele não conseguia jogar bem e frequentemente era deixado de fora dos times.
“Eu sempre gostei muito de futebol, sou apaixonado, mas não conseguia jogar direito. A coordenação motora era extremamente prejudicada”, afirmou. Ele também lidava com comentários de colegas, o que gerava frustração e sentimentos de inadequação. Ao abordar a adolescência, relatou sentimentos constantes de rejeição e atraso em relação aos pares. “Eu sempre fiquei com a sensação de que estava cinco anos atrás dos outros”, disse.
O Impacto do Capacitismo e a Descoberta do Autismo
Marx também destacou o impacto do capacitismo, inclusive dentro da família. O capacitismo, que é a discriminação e o preconceito contra pessoas com deficiência, pode dificultar a aceitação e o reconhecimento do autismo.
“Existe uma negação muito grande de olhar para aquilo e dizer ‘isso é um transtorno e precisa ser olhado como tal’. Parece que admitir isso seria dizer ‘eu tenho um filho com deficiência’”, afirmou. Essa resistência em reconhecer o autismo como uma condição que requer atenção e suporte pode atrasar o diagnóstico e o acesso a tratamentos adequados. A dificuldade em aceitar ter um filho com deficiência é uma barreira que muitas famílias enfrentam.
A descoberta do autismo trouxe uma mudança importante de perspectiva para Marx. Ao compreender melhor o transtorno, ele pôde ressignificar suas experiências e desenvolver estratégias para lidar com os desafios. A busca por informação e o contato com outras pessoas autistas foram fundamentais nesse processo.
“A primeira vez que eu ouvi falar de autismo sob uma perspectiva terapêutica foi quando conheci o NAIA, em 2022. Foi quando comecei a ver o autismo também por uma perspectiva positiva”, relatou.
A Importância do Diagnóstico Precoce e do Suporte Adequado
A mesa redonda também abordou a importância do diagnóstico precoce do autismo. Quanto mais cedo o transtorno for identificado, mais cedo a criança poderá receber o suporte adequado para desenvolver suas habilidades e superar suas dificuldades. O diagnóstico precoce é crucial para garantir um futuro melhor para a criança com autismo.
A falta de suporte ao longo da vida pode ter um impacto significativo no desenvolvimento e na qualidade de vida das pessoas autistas. É fundamental que elas tenham acesso a serviços de saúde, educação e assistência social que atendam às suas necessidades específicas. O apoio familiar e a inclusão social também são essenciais.
As diferenças na manifestação do autismo da infância à vida adulta também foram discutidas. O autismo se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, e as necessidades de suporte podem variar ao longo da vida. É importante que os profissionais de saúde e educação estejam preparados para lidar com essa diversidade.
O episódio do Introvertendo destaca a importância de desmistificar o autismo e promover a inclusão das pessoas autistas na sociedade. A conscientização e a informação são ferramentas poderosas para combater o preconceito e garantir que todos tenham a oportunidade de desenvolver seu potencial. Compreender as necessidades de um filho com deficiência, como o autismo, é o primeiro passo para oferecer o suporte necessário.
A segunda parte da conversa, que promete aprofundar ainda mais a discussão sobre o autismo em diferentes fases da vida, será publicada na segunda metade do mês de fevereiro.
O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Amazon Music e CastBox, além de versão em vídeo no YouTube do NAIA Autismo. O Introvertendo também oferece transcrição dos episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva. Essa iniciativa demonstra o compromisso do podcast com a acessibilidade e a inclusão.
A jornada de pais que descobrem ter um filho com deficiência, como o autismo, é repleta de desafios, mas também de aprendizado e amor. A busca por informação e o apoio de outras famílias são fundamentais nesse processo. A conscientização sobre o autismo é essencial para construir uma sociedade mais inclusiva e acolhedora para todos, especialmente para aqueles que têm um filho com deficiência.
