Pontos-chave

  • O Dia do Orgulho Autista (18 de junho) transcende a celebração, sendo um convite urgente à reflexão sobre identidade e direitos.
  • A representatividade no autismo ainda é desigual: vozes com maiores necessidades de suporte (nível 3) são frequentemente silenciadas ou invalidadas.
  • A Revista Autismo 🛒 nº 33 traz a arte de Júlio Augusto Zanrosso Vieira, um autista nível 3 de suporte, como um manifesto de inclusão plena.
  • A importância de reconhecer que a comunicação transcende a fala e que o respeito deve ser universal, independentemente do nível de suporte.
  • A necessidade de integrar a Terapia ABA 🛒 e outras intervenções com um olhar humanizado que respeite a neurodiversidade.

O Orgulho Autista além do calendário

Como jornalista e editor-chefe da Revista Autismo desde 2010, minha trajetória tem sido marcada por uma observação constante: o autismo não é apenas um diagnóstico, é uma lente pela qual o mundo é interpretado de formas infinitamente diversas. Ao chegarmos à edição nº 33, que cobre o trimestre de junho a agosto de 2026, fomos tomados por uma necessidade profunda de revisitar o significado do 18 de junho — o Dia do Orgulho Autista. Longe de ser apenas uma data comemorativa para preencher o calendário, este dia é um marco político e existencial.

O “orgulho” no contexto do autismo não se trata de negar as dificuldades ou os desafios inerentes a uma condição do neurodesenvolvimento. Trata-se, fundamentalmente, de reivindicar o direito de existir sem a necessidade constante de se “curar” ou se moldar a um padrão de normalidade que, muitas vezes, é excludente. É sobre identidade, pertencimento e, acima de tudo, respeito. Quando olhamos para a história da neurodiversidade, percebemos que, por décadas, a voz das pessoas autistas foi abafada por especialistas, pais e instituições que falavam sobre nós, mas raramente conosco.

Nesta edição, buscamos quebrar esse ciclo. A reportagem de capa, assinada pela brilhante Sophia Mendonça, é um mosaico de vozes. Ela não traz apenas teorias, mas a vivência real de quem caminha pelo espectro. No entanto, como editor, senti que precisávamos ir além do texto. Precisávamos de uma representação visual que não fosse apenas ilustrativa, mas que carregasse em si o peso e a beleza da neurodiversidade em sua forma mais crua e autêntica.

A armadilha da representatividade seletiva

Existe um perigo latente quando falamos sobre representatividade no autismo: a criação de uma “elite” do espectro. Frequentemente, os espaços de fala são ocupados por pessoas autistas com altas habilidades, com fala fluida e que conseguem navegar no mundo neurotípico com relativa facilidade. Essas vozes são vitais, sem dúvida. Elas abriram portas e derrubaram estigmas. Contudo, ao elevarmos apenas essas vozes, corremos o risco de invisibilizar uma parcela imensa da nossa comunidade: aqueles que possuem maiores necessidades de apoio, o chamado nível 3 de suporte.

É doloroso observar como, em muitos fóruns de discussão, as famílias de autistas com maior dependência são tratadas com desdém ou invalidadas. Pais e mães — especialmente as mães, que carregam o peso do cuidado diário — são frequentemente silenciados sob a alegação de que “não deveriam falar pelos seus filhos”. Mas quando o filho não utiliza a fala oral ou possui desafios sensoriais que impedem a participação em debates formais, quem será a ponte? A invalidação desses cuidadores é, na prática, a invalidação do próprio autista que eles representam.

A inclusão real não pode ser seletiva. Ela não pode ser apenas para o autista que “passa despercebido” em um ambiente corporativo. Ela precisa abarcar o autista que precisa de suporte 24 horas, o autista que se comunica por meio de gestos, de música ou de artes visuais. Se o nosso movimento não for inclusivo para o nível 3, ele não é um movimento de orgulho, é um movimento de privilégio.

A arte como voz: o caso de Júlio Augusto

Foi com o desejo de desafiar essa invisibilidade que convidamos Júlio Augusto Zanrosso Vieira para ilustrar esta edição. Júlio tem 11 anos, mora em Palmas (TO) e é um autista nível 3 de suporte. Para muitos, talvez ele fosse “apenas” um menino que não fala. Para nós, ele é um artista cujos traços e cores gritam a complexidade de um mundo que muitos neurotípicos sequer conseguem vislumbrar.

Ao colocar a arte de Júlio na capa da Revista Autismo, não estamos apenas fazendo uma escolha estética. Estamos fazendo uma declaração política. Estamos dizendo que a comunicação não se resume à linguagem verbal. A arte de Júlio é uma forma de expressão poderosa, uma maneira de ele dizer: “Eu estou aqui, eu vejo o mundo desta forma, e esta forma é válida”.

Quando permitimos que um autista nível 3 ocupe o lugar de destaque que historicamente foi negado, estamos promovendo uma verdadeira inclusão. Estamos ensinando aos nossos leitores que o espectro é vasto e que o respeito não deve ser condicionado à capacidade de adaptação do indivíduo ao nosso mundo, mas sim à nossa capacidade de nos adaptarmos ao mundo dele.

Terapia ABA e o respeito ao indivíduo

Como alguém que transita entre a gestão na Tismoo e a redação jornalística, sou frequentemente questionado sobre o papel da Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) neste cenário de orgulho e identidade. É fundamental esclarecer: a Terapia ABA, quando aplicada com ética, ciência e, principalmente, humanidade, não é uma ferramenta de “conserto”, mas um suporte para a autonomia.

O objetivo da Terapia ABA não deve ser transformar o autista em um “não-autista”, mas sim fornecer as ferramentas necessárias para que ele possa interagir com o ambiente de forma mais segura e independente. O problema surge quando a técnica é aplicada de forma rígida, ignorando a subjetividade do indivíduo. O orgulho autista e a Terapia ABA podem — e devem — caminhar juntos. Podemos celebrar quem o autista é, enquanto trabalhamos para diminuir as barreiras que impedem sua qualidade de vida.

Ouvir o autista, observar suas preferências e respeitar seu tempo são princípios que devem nortear qualquer intervenção terapêutica. Se a Terapia ABA não estiver alinhada com o respeito à neurodiversidade, ela perde sua essência clínica e se torna apenas uma imposição comportamental. Precisamos de profissionais que compreendam que o comportamento é uma forma de comunicação, especialmente para aqueles que ainda não dominam a fala.

Um mosaico de vivências na edição 33

A Revista Autismo nº 33 é um reflexo dessa busca por pluralidade. Além da capa histórica, trouxemos um time de colaboradores que compreende a profundidade do que estamos discutindo. Tiago Abreu nos conduz por uma reportagem fascinante sobre as “corridas pelo autismo”, um fenômeno que une esporte, superação e conscientização. É inspirador ver como a atividade física pode ser um catalisador de inclusão.

Também contamos com a expertise do neuropsicólogo Damião Silva, que traz luz à complexa interseção entre o TEA e a superdotação — um tema que, embora frequente, ainda é cercado de mitos. Compreender que um autista pode, sim, ser superdotado é essencial para que possamos oferecer o suporte pedagógico adequado e evitar que talentos sejam desperdiçados em salas de aula que não compreendem a neurodivergência.

Não poderíamos deixar de fora a dimensão humana e, por vezes, dolorosa do processo. A carta de Roseli Claro sobre o luto toca em pontos que muitas vezes evitamos falar. O luto no autismo não é apenas sobre a perda, mas sobre o luto do ideal, o luto da expectativa, e o processo de aceitação que leva a um amor mais profundo e real. E, como não poderia faltar, a Turma da Mônica nos presenteia com uma HQ exclusiva do André. Desta vez, o foco é o desconforto sensorial das etiquetas — algo aparentemente simples, mas que para muitos autistas representa uma barreira diária de sofrimento físico.

Esta edição é, portanto, um convite. Convido você, leitor, a mergulhar nestas páginas não apenas para buscar informações técnicas, mas para se conectar com a humanidade que habita cada relato, cada desenho de Júlio e cada reflexão de nossos articulistas. O autismo é uma parte integrante da diversidade humana. E celebrar o orgulho autista é, acima de tudo, celebrar a vida em todas as suas cores, sons e formas de expressão.

Boa leitura, e que possamos, juntos, continuar construindo um mundo onde o suporte não seja sinônimo de silenciamento, mas de oportunidade.