Pontos-chave

  • A FDA está prestes a finalizar uma regra que proíbe o uso de dispositivos de estimulação elétrica para controle comportamental.
  • O dispositivo é utilizado majoritariamente em uma única instituição nos EUA, o Judge Rotenberg Educational Center.
  • A agência classificou os aparelhos como causadores de riscos “inaceitáveis e substanciais”, incluindo danos físicos e psicológicos.
  • O debate coloca em xeque a ética das intervenções comportamentais e reforça a necessidade de práticas baseadas em evidências, como a Terapia ABA ética.
  • Após uma derrota judicial em 2021, o Congresso americano conferiu explicitamente à FDA o poder de banir tais dispositivos.

O fim de uma era sombria: A iminente proibição dos choques

Como jornalista que acompanha há anos a evolução das políticas públicas voltadas ao autismo e às deficiências do desenvolvimento, raramente me deparo com um tema que desperte tanta indignação e, ao mesmo tempo, tanta necessidade de clareza quanto o uso de dispositivos de choque elétrico em pacientes. A notícia de que a FDA (Food and Drug Administration) está prestes a finalizar uma regra que proíbe, de forma definitiva, o uso desses aparelhos para o controle de comportamentos autolesivos ou agressivos não é apenas uma vitória burocrática; é uma vitória da humanidade sobre práticas que pertencem a um passado que deveríamos ter superado há décadas.

Durante anos, a existência de uma instituição — o Judge Rotenberg Educational Center, em Massachusetts — utilizando choques elétricos como forma de “modificação comportamental” foi um ponto de fricção doloroso para a comunidade científica e para as famílias de pessoas com autismo. A ideia de que o sofrimento físico pudesse ser uma ferramenta pedagógica ou terapêutica é um conceito que, para qualquer profissional ético da saúde mental, soa como um contrassenso absoluto.

O contexto da polêmica: Por que a FDA decidiu intervir?

A determinação da FDA não é arbitrária. A agência baseou sua decisão em evidências robustas de que esses dispositivos apresentam um “risco inaceitável e substancial” de lesões. Não estamos falando apenas de desconforto, mas de danos teciduais, queimaduras, agravamento de sintomas subjacentes, depressão severa e, tragicamente, o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Quando falamos sobre o tratamento de comportamentos desafiadores em pessoas com autismo, a literatura científica moderna e as diretrizes internacionais são unânimes: o foco deve estar na compreensão da função do comportamento e no ensino de habilidades substitutivas. A Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada), quando aplicada com rigor ético e foco no bem-estar do indivíduo, trabalha exatamente na direção oposta à punição física. O objetivo da Terapia ABA de qualidade é a promoção da autonomia e a melhoria da qualidade de vida, jamais a submissão através da dor.

O embate jurídico: Entre a autoridade e a ética

A jornada até esta proibição iminente tem sido um campo de batalha jurídico. Em 2020, a FDA tentou banir os dispositivos, mas a medida foi derrubada em 2021 por um tribunal de apelações que argumentou que a agência havia excedido sua autoridade regulatória. Aquilo foi um balde de água fria para defensores dos direitos das pessoas com deficiência. No entanto, o legislativo americano entendeu a gravidade da situação e, posteriormente, agiu para garantir que a FDA tivesse o respaldo legal necessário para instituir o banimento.

O que vemos agora é o desfecho de um processo que deveria ter sido concluído muito antes. A alegação da instituição que ainda utiliza tais métodos — de que os choques são usados apenas quando “outras opções foram esgotadas” — é um argumento frágil diante dos direitos humanos fundamentais. A ciência não endossa o uso da dor como ferramenta de ensino. Pelo contrário, a ciência aponta que o medo e a dor impedem o aprendizado e a regulação emocional, elementos essenciais para qualquer pessoa no espectro do autismo.

Terapia ABA e dignidade humana: O caminho oposto à violência

É fundamental que, como sociedade, saibamos distinguir o que é uma prática baseada em evidências e o que é uma prática punitiva disfarçada de tratamento. A Terapia ABA, frequentemente mal compreendida por quem não conhece sua evolução recente, é uma ciência que estuda o comportamento humano. Ela se sustenta sobre pilares de reforço positivo e análise de ambiente. Quando alguém questiona a validade de terapias comportamentais, é vital que olhemos para a diferença abismal entre o suporte estruturado e a punição aversiva.

O uso de choques não é, de forma alguma, uma extensão da Terapia ABA. Na verdade, a comunidade de analistas do comportamento tem sido uma das vozes mais fortes na condenação dessas práticas. A ética profissional na Terapia ABA exige que o tratamento seja realizado com o máximo respeito à dignidade do paciente. O foco é sempre o desenvolvimento de repertórios que permitam à pessoa com autismo navegar pelo mundo com mais segurança e independência, e não o simples “apagamento” de um comportamento através da dor.

A proibição que a FDA está prestes a implementar envia uma mensagem clara: não há lugar para a tortura institucionalizada no cuidado de pessoas com deficiência. A dignidade humana não é negociável, e o fato de um indivíduo ter um comportamento desafiador não retira dele o direito à integridade física e psicológica.

O futuro da proteção aos direitos dos autistas

À medida que aguardamos a publicação da regra final, o sentimento é de um alívio misturado com vigilância. A proibição é um passo necessário, mas o trabalho de proteger a comunidade autista continua. Precisamos garantir que, uma vez banidos esses dispositivos, as instituições sejam capazes de oferecer abordagens de suporte que sejam, de fato, humanas e eficazes.

O autismo não é uma condição que requer “correção” através de choques; requer compreensão, adaptação ambiental e, sobretudo, respeito. A história das instituições que utilizam métodos punitivos severos está chegando ao fim, mas a nossa responsabilidade em promover práticas baseadas em evidências e centradas na pessoa está apenas começando. Que este momento sirva de lição para que nunca mais confundamos a necessidade de suporte com a imposição de sofrimento.

Como jornalista, continuarei monitorando de perto a implementação desta regra. A proteção das pessoas com deficiência é um dos termômetros mais precisos da saúde moral de uma sociedade. Se falharmos em proteger os mais vulneráveis do abuso sob a fachada do “cuidado”, falhamos com todos nós.

É hora de virar a página. A ciência, a ética e, acima de tudo, a compaixão exigem que esses dispositivos sejam retirados de circulação permanentemente. O futuro do tratamento do autismo deve ser construído sobre a base sólida da empatia e do conhecimento, nunca sobre a base da dor.